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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Os Não-Lugares

Delacroix -- A Liberdade guiando o povo
Quando começamos a descrer de utopias? Quando nossas mentes tornam-se frias a elas? Quando ocorre a defenestração de nossos sonhos e nas janelas permanecem medonhos horizontes de chão sem fim?

É assim, um dia a gente deixa de lutar, de buscar, de sonhar, de acreditar na metamorfose do mundo! E o fundo sem fim da indiferença ronda, sonda e arromba nossas portas, nossos portos, nossas esperanças mortas e nossos passos tortos. Nesta hora, somos tijolos compondo o muro, seguro, da castração. Neste agora estamos no solo maldito e escuro da desilusão.

Não há utopias -- lugares dos sonhos -- pois a pragmática do mundo, nada estática, afundou fundo os dias dedicados a elas. Um solvente universal arremessou pelas janelas da alma os não-lugares para realizar a calma operação da venda de sonhos sem vida pela estabelecida valoração de um vil metal.

Edição com imagens do filme 'The Wall'

Publicado no dia 30 de setembro de 2005 em
http://www.icaroberanger.blogger.com.br/.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Som e Luz

Eu sempre fui um menino
De natureza solitária
Que lia no mapa das coisas
O riso da letra divina
Em sua beleza primária
Moda — Zé Renato / Juca Filho

Urge crepitar a sensibilidade, para ver se surge algo além desta crepuscular surdez para tudo quanto há de beleza. Porque a crueza sem hora nem vez fez-se senhora, não quero crer no que me rodeia ("pare o mundo que eu quero descer" em paz!).

Tem horas que a mente esta cheia desta surdez. Surdez que leva à mudez da sensibilidade. Que faz com que aceitemos a facilidade da moral da sociedade "Big Brother", que exclui o incômodo e o diferente, mesmo sendo necessária a exclusão de gente, a desumana exclusão humana. Os holofotes da fama e os sacerdotes do capital elidem e iludem. Os sorrisos e a mixórdia estão em concórdia tácita, plácida e alienada com a morte da África (fenômenos anômalos da mesma sorte de lógica demagógica).

Mas todos os dias são ofertadas novas canções, novas porções de sensibilidade, de criatividade, de construção de mundo. Mas ainda é o moribundo frio de auroras que, ainda agora, predominantemente captamos pelas centenas de antenas de televisão que "vomitam música urbana".

O menino "que lia no mapa das coisas o riso da letra divina em sua beleza primária" sofre dentro de nós sua execução sumária na rudeza estética, estésica e ética do que lhe cerca. A recepção estática do lixo que lhe atiram à cara como se fossem dádivas do céu são lástimas, raras de serem percebidas. A vida, sem prazer, se anestesia atrás da miséria estéril, cinérea, do cemitério do sentir.

Ouso pedir: "ouçamos o silêncio para apreciarmos a música!" Sou propenso, quiçá por causa dos sonhos e sentires, à solidão de astros e montanhas, aos risonhos caminhos sem rastros e às estranhas lágrimas ante os tons que a vida produz. Todo homem, afinal, é som e é luz...


Sala São Paulo | OSESP


Publicado no dia 29 de janeiro de 2004 em
http://www.icaroberanger.blogger.com.br/.

sábado, 22 de dezembro de 2007

So... Happy Christmas

Shoppings centers abarrotados: Crianças e adultos, atropelando-se e atropelados, fazem manha pelo presente que não ganham. Cartões, que cobram resposta, com a seguinte frase posta: "Feliz Papai Noel". E o bom velhinho, insumo da cor duma lata de Coca-Cola, alavanca o consumo.

Meu passo estanca. Do alto da descrença adquirida na mania de enxergar símbolos, salta o simplório questionamento: qual o intento dos Evangelhos que narram o nascimento de Cristo? E me visto desta questão aqui, qual fora um moralista, não para passar em revista a obrigação com o deus que se fez homem — tais questões, ao incrédulo, não se consomem nem se colocam —, mas apenas para olhar como se deslocam os significados das coisas sobre os significantes materiais, e para descobrir como são insignificantes todas as eternidades inventadas, todas as verdades forjadas na peia dos sentidos escravizados, na ceia dos meninos pelados no meio-fio, meio frio de deserto e solidão, meio fogo de um medo que vive perto do caixão, do valão comum dos corpos quase mortos esquecidos, de mendigos e indigentes.

Faustas festas em tantas casas, tantas brasas que aquecem frios, tudo isso em contraste com o estio de lágrimas nas páginas daquele papelão com que se cobrem os homens que dormem no chão. Não se pode ter muita esperança, muita confiança que a bondade há de se estender para além desta data. O vinho que esquenta o coração também prepara o crime que a televisão noticia. Espetáculos lúgubres televistos por meus olhos são os tentáculos de minha percepção que cingem o mundo com suas misérias, com suas matérias sensacionais nos jornais assépticos que, por serem eletrônicos, não sujam as mãos.

No peito, a sensação de que algo deve ser feito. Nas mãos, a concretude da impotência do querer. A consciência, acho que se ilude, brada por ação. A realidade desagrada a razão e aconselha calma. Os traumas de muitas almas podem esperar o fim da festa — atesta Papai Noel, o sacerdote da inação...


Publicado no dia 27 de dezembro de 2003 em
http://www.icaroberanger.blogger.com.br/.