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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Encantador de Gaivotas

p/ Paula

O céu azul é muito importante na vida dos passarinhos
Porque os passarinhos precisam antes de belos ser eternos.
Eternos como uma fuga de Bach
Manuel de Barros — De Passarinhos


Quisera me espalhar na natureza, encontrar a beleza azul da imensidão; saber a gramática do chão e dos elementos, a matemática dos ventos e das mãos. Encantaria animais com a poesia que já não cantam mais os poetas hodiernos. Derramar-me-ia terno nos mares, nos ares, nos perfumes e nos lares somente para sorver a eternidade do verso, viver o meu anverso feito canção.

Penso que meus sussurros chegariam aos teus ouvidos, aos teus sentidos, com mais estrondo do que um trovão. Bastaria um ato de vontade para ofertar-lhe a potestade dum ramo de poesias bem olentes, colher flores que estariam bem contentes em comunicar-lhe a complexa criação. Bastaria um pouco de desejo para criar asas, sobrevoar casas, oceanos, o Tejo... e levar um céu azul (ou cinéreo) numa aquarela para com ele descortinar tua janela, levantar o véu de teus olhinhos (tão belos) para te mostrar, ao som de um violoncelo, a poética de um instante-passarinho.

Far-me-iam minhas asas, destarte, uma gaivota; mudaria de meu vôo a rota tendo o céu e o Tejo por estandarte, apenas para mirar tua face e sorver os poemas de teus olhos, brilhantes e plenos de mar (de rosas, e também de abrolhos). Far-me-iam meus lábios, destarte, brisa — o vento que se suaviza — ofertar-te-ia (com mais sinestesia que com arte) os beijos do final da tarde, quando o sol, sem alarde, vai-se pôr.

Se não tenho o sabor deste encantamento, acho que naquele mágico momento em que as asas da gaivota que sobrevoava o Tejo te comunicaram meu ser, pude conhecer-lhe o gosto. Minha poesia fez-se eterna na lembrança em que me fiz presente, na gaivota que te olhou o rosto e se fez permanente nas asas olentes destes versos, que misturaram para sempre os nossos (tão contíguos e descontínuos) universos.


Publicado no dia 30 de março de 2004 em
http://www.icaroberanger.blogger.com.br/.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Danza de las espadas




E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra a hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa - Eros e Psique






Cantam as espadas e a viola. Viola-se um corpo. Fadas dançam para um corvo. Augúrios e mistérios, espúrios perjúrios, etéreos doentes, todos se tocam. Atrás da pedra se pressente o ser. Evocam um deus longínquo em língua nunca falada. Dançam as espadas...

Vinte e cinco sabeus descem a montanha. Estranha a sensação do que se pode. Respira-se magia e elegia, poesia e agonia. O que erode além dos muros é o peito da donzela. Bruxos trajando os escuros cortam em dois o tronco virgem. Bela é a música que a tudo preside. O sangue elide das veias a vida venal.

Cheias de lidas, as mãos e o punhal se prendem ao rito. Um grito, ao longe, denuncia o Sabá. Correm de lá todos os bruxos, deixando arder ao fogo a carne branca da donzela. Meu sangue regela. Acordo exangue do pesadelo. Meu refestelo dura poucos segundos. Eu me inundo ouvindo o cutelo soar. Congelo ao lembrar que lâminas traspassarão a fauna lânguida de minha alma. Visto a mortalha assim: retalha-me a dança das espadas em mim.

Meu pânico é ser a donzela que vai arder no próximo conciliábulo das trevas. Acho que pressentia que eu mesmo era, inda tonto do que houvera, a donzela que ardia...


Publicado no dia 10 de janeiro de 2004 em http://www.icaroberanger.blogger.com.br/.