Mostrando postagens com marcador Sophía. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sophía. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Um olhar sobre os olhos

"Há certas coisas no mundo
que eu olho e fico surpreso:
uma nuvem carregada
se sustentar com o peso
e dentro de um bolo d'água
sair um corisco aceso."

O Espetáculo -- Cordel do Fogo Encantado
(album: O Palhaço do Circo sem Futuro)



Existem muitas formas de se ver. Existe o olhar que não se conforma, o que deforma, o que se põe a ascender... Candeias de nosso corpo, cadeias de sentimentos, tantas coisas são os olhos, tantos molhos destas chaves que abrem e sabem outros tantos peitos!

Podemos levar os olhos afeitos a tanta mudança, ter olhos de assassino ou de criança. Podemos ter olhos cansados ou conservá-los meninos. Podemos mesmo não ver quando olhamos, pois muitas vezes sequer enxergamos por tanto olhar.

Por fim, pode-se conservar nos olhos a surpresa, como quem represa a natureza do espanto. Para tanto, deve-se desatar o que se pesa nos olhos e untá-los com óleos da inocência que ainda não se desfez, para que se conserve a ciência de olhar o mundo pela primeira vez.



Publicado no dia 26 de novembro de 2005 em
http://www.icaroberanger.blogger.com.br/.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A Estética do Acaso


Perguntas, tantas juntas, povoam o caminho. Aninho-me à sombra da dúvida. Sonda-me, túmida, a interrogação. São as mesmas perguntas que estão há milênios rondando o espanto. Certezas são dadas, pregadas, vendidas e ventiladas; não comprovadas, no entanto.

A perplexidade de haver mundo lança o imperativo do sentido, categórico imperativo ao fundo do espanto. Quantas respostas, quantos cantos se erigem pela incognoscibilidade da questão. Há sentido, há destino, há direção? Ou a destinação de tudo é o acaso? Não se faz músicas com sons a esmo, nem mesmo com tons por descaso jogados ao vento, ao acaso, à ondulação. Mas pode ser que a beleza do mundo, o profundo mistério da vida, enfim, a resposta querida esteja contida, não numa explicação, mas num silêncio.

Silencio, pois o ruído pode produzir a audição, me propõem as veredas que sigo, as alamedas que percorro enquanto persigo alguma explicação. De um esbarrão pode brotar um beijo, desejo que de um engano, uma amizade, temo que de um silêncio, uma maldição. Toda ordem de inesperados observa nossas esquinas, nossas quinas e adentra nossa casa, nossos lados, nossos corações.

Que regente logra conduzir esta louca orquestra, quem logra cerzir um vestido de frestas de sentido e, ainda assim, pôr botões harmonia no dia, na vida, no universo, como quer faz canções e versos? Que ética seguem os deuses e, se for o caso, qual é a estética do acaso?


Publicado no dia 10 de setembro de 2005 em
http://www.icaroberanger.blogger.com.br/.

sábado, 13 de dezembro de 2008

O Silêncio Ontogenético

"São as palavras mais silenciosas as que trazem a tempestade. Pensamentos que chegam com pés de pomba dirigem o mundo."
Friedrich Nietzsche -- Assim Falou Zaratustra


Em silêncio, cresce o homem ao redor do homem. Ele esquece que as coisas não somem: tornam-se. As coisas ornam-se de porvir.

A pequena gota anuncia a tempestade que há de vir. A suave brisa já divisa a qualidade do tufão que se insinua. A mulher nua sinaliza o turbilhão dos prazeres incontidos. Naturais, bemóis ou sustenidos, todos os tons, cientes de seus deveres, se fazem presentes nos sons que acalantam.

O que há no mundo? Profundos entes que cantam as suas metamorfoses. Um campo de múltiplas psicoses, últimas escleroses. No mundo há os rios que se transformam, os banhos que se renovam, perceptos que ganham forma, como os de Heráclito. O ser no mundo se apresenta apenas como uma efemeridade, uma singularidade pronta a tornar-se. Um processo aponta e faz o mundo, traz o fundo do sem fim, o estopim da poesia.

Uma sinfonia começa, às vezes, com uma breve e desconexa melodia. Um homem começa sua vida numa célula. Uma libélula lida primeiro com o seu estado larva. Os amores são banhados primeiro no véu da ansiedade. Uma longa saudade é sentida dia após dia.

O silêncio de um pensamento o espalha do momento concebido ao átimo átomo de um novo mundo construído ao fundo de nós.




Publicado no dia 13 de março de 2004 em
http://www.icaroberanger.blogger.com.br/.